sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O INFERNO DE UM ANJO - CAPÍTULO 35 - PARTE 3 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange




Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL

Capítulo XXXV

O HOMEM MISTERIOSO (CONTINUAÇÃO)


No palacete do barão de Rastignac, depois da celebração do matrimônio de Luís Paulo e Denise, em vez da paz e da felicidade, parecia que haviam entrado o desespero e a tristeza. Luís Paulo já não era mais o alegre e animado rapaz, infatigável promotor de divertidas reuniões e festas. Seu semblante agora refletia tristeza, desventura, desânimo, e ele passava longas noites de insônia no quarto que ocupara quando solteiro, enquanto Denise continuava a torturar-se, em desespero, no grande quarto matrimonial. O remorso atormentava o coração do jovem barão e quando conseguia dormir um pouco, seu sono era agitado por pesadelos, que o torturavam tanto, ou, mais, do que os pensamentos que tinha quando acordado. Via sempre Maria "Flor de Amor", com os cabelos esvoaçantes, os olhos cheios de pavor, a chamar por ele, do alto do parapeito de enorme ponte, sob a qual corria um rio caudaloso. Quando, porém, cheio de horror, se lançava em seu socorro, no momento crítico, em que estava quase para alcançá-la com seus braços fortes, a moça, soltando um grito estridente, precipitava-se nas águas impetuosas do rio e era arrastada pela violenta corrente... Era o momento em que Luís Paulo acordava sobressaltado de seu pesadelo, molhado por um suor frio, como um agonizante. O transcorrer dos dias em nada diminuíram a dor nem a paixão do jovem barão. Na sua mente e no seu coração estava sempre a lembrança inapagável de Maria "Flor de Amor".

- Teria eu de viver mil anos. - dizia Luís Paulo a si mesmo - e não conseguiria esquecer essa criatura angelical, que penetrou na minha alma, que está no meu sangue! Não quero pensar que esse mau sonho corresponda à realidade. Não me resigno a aceitar a idéia de que minha idolatrada "Flor de Amor" tenha morrido. A morte não pode ter-me roubado o anjo de minha vida. Algo tem de acontecer para que os meus olhos voltem a contemplá-la, que sem ela, longe dela, a vida é para mim o pior dos tormentos, a mais pesada das cruzes!
Em consequência de passar noite e dia entregue a estas amargas e dolorosas reflexões, Luís Paulo vivia devorado pela melancolia e facilmente se irritava, deixando de ser afetuoso e cordial para com os seus servidores. Durante o dia, o barão Luís Paulo passava a maior parte do tempo na biblioteca do palácio. Tentava distrair-se com a leitura, mas não o conseguia. Aquela imensa sala cheia de livros tinha grandes janelões e, através das suas vidraças, podia ver-se o magnífico jardim do palácio. Mas os encantos da natureza não mais lhe interessavam, não olhava para as flores, nem para os pássaros, dos quais em outro tempo fora muito amigo. Agora Luís Paulo vivia não como um homem afortunado, na plenitude de sua existência, mas como um morto-vivo. Uma noite, Luís Paulo perambulava pela biblioteca, cujas luzes não quis acender. No silêncio que o rodeava, percebeu o rumor das rodas de um veículo que avançava pela alameda principal do jardim. Aproximou-se de um dos janelões e viu que uma charrete iluminada pela débil luz de dois lampiões vinha em direção de uma das portas do palácio. Não imaginando quem pudesse ser àquela hora da noite, em vez de chamar o mordomo, ele mesmo abriu uma das bandas da porta para poder receber o recém-chegado, que naquele momento, após fazer parar o veículo, estava descendo do mesmo. O desconhecido vestia o hábito peculiar dos frades capuchinhos. Era alto, magro, a espessa barba enquadrava seu rosto e seus olhos tinham a perspicácia e a malícia de uma raposa.
- Boa noite, barão de Rastignac - exclamou o visitante noturno. - Folgo em ver que o senhor ainda não se recolheu ao leito, porque nesse caso teria sido forçado a incomodá-lo.
- Mas... Quem é o senhor, padre? - perguntou Luís Paulo com estranheza. - Não me parece tê-lo visto nunca antes de agora.

  
- Então o senhor não me reconhece? Este hábito é apenas um disfarce. Não sou um frade capuchinho. Sou o detetive Ubaldo, que o senhor bem conhece! A barba e o hábito me servem para despistar melhor aqueles a quem preciso vigiar - explicou o investigador.
- Faça o favor de entrar, senhor Ubaldo. Venha comigo. Na biblioteca poderemos conversar sem sermos interrompidos.
O detetive atendeu ao convite, entrando na suntuosa mansão de seu cliente, que o instalou numa poltrona, no grande salão da biblioteca. O barão Luís Paulo sentou-se em frente a Ubaldo.
- Estou esperando ansiosamente as notícias que, sem dúvida, motivaram sua visita. Que conseguiu averiguar a respeito de Maria "Flor de Amor"? - perguntou o jovem barão, com palavras em que vibrava a maior ansiedade.
- Não são boas as notícias de que sou portador - respondeu Ubaldo, dando a seu rosto a expressão mais triste e compungida que lhe foi possível. - Verdadeiramente lamento, quisera ter trazido para o senhor, barão, as melhores notícias, mas o destino se interpôs e...
- Deixe de preâmbulos, que não posso suportar - gritou Luís Paulo, irritado pela oca fraseologia do investigador. - Diga de uma vez, boas ou más, as informações que conseguiu obter.
- Estou de acordo com seu desejo, senhor barão. Com a maior tristeza lhe comunico que Maria "Flor de Amor"... Morreu!
- Não pode ser verdade – proferiu o jovem barão. - Se ela tivesse morrido, meu coração que tanto a ama teria estourado dentro do meu peito!... Penso que o que o senhor acaba de dizer é apenas uma suspeita, nunca uma total e absoluta realidade.
- Bem quisera eu que fosse apenas uma suspeita - disse Ubaldo com voz enrouquecida. Se a descrição que o senhor me fez dessa moça é rigorosamente exata, não pode haver dúvida. O corpo de uma linda jovem loura, olhos azuis, idade entre dezoito e vinte anos... Foi recuperado no dia de ontem e hoje já foi autopsiada pelos médicos.
Luís Paulo apertou a cabeça entre as mãos desesperado.
- Que horrenda desventura a minha! Oh, sou o mais infortunado dos homens! - gemeu Luís Paulo.
Em seguida acrescentou:
- Quero vê-la. Quero dar-lhe o último beijo.
- Senhor barão, não lhe aconselho ver a morta. Aquele seu lindo rosto foi impiedosamente ferido pelas pedras do fundo do rio e mordido pelos peixes. Os olhos que seriam seu encanto, já não estão nas órbitas. Dá horror ver o estado a que ficou reduzido. Conserve a lembrança daquele rosto tal como o senhor o viu pela última vez, não acrescente à sua dor e amargura a tétrica visão daquele pobre rosto tão horrivelmente desfigurado!
Luís Paulo permanecera imóvel com os olhos parados. Parecia ainda não estar convencido.
Com a teimosia de uma criança, apegava-se à convicção de não ser verdade aquilo que ouvira, procurava convencer-se de que tudo não passava de um pesadelo, que logo passaria e o deixaria em paz.
- Morta a criatura que eu adorava! Não, não pode ser... O destino não pode ser tão cruel! Arrebatar-me toda esperança de felicidade! "Flor de Amor", a pétala que perfumava minha vida e era toda a poesia e o culto do meu coração!
Totalmente indiferente à dor do jovem fidalgo, Ubaldo, o detetive, com o ar de quem levou a termo um assunto fastidioso e que se sente feliz por poder, afinal, ir embora, disse:
- Penso que o senhor prefere ficar só, agora. Lamento ter sido eu o portador da confirmação da morte dessa moça, mas o senhor compreende que não podia agir de outra maneira. Boa noite, senhor barão...
Luís Paulo, que se havia deixado cair numa poltrona com os cotovelos apoiados aos joelhos e as mãos pendentes, brancas e como que sem vida, não deu nenhuma resposta. Mesmo depois que o falso frade partiu. Por longo tempo o jovem barão permaneceu naquela posição, com a cabeça caída, vencido, destroçado pela força do destino adverso. O triste soar de um relógio no vestíbulo, sobressaltou-o. Parecia que aquelas badaladas se destinavam a recordar-lhe que, acontecesse o que acontecesse, o tempo ia sempre avançando, lento e inexorável, sem tomar conhecimento das tragédias que sem cessar acontecem neste nosso mundo. Como um autômato, Luís Paulo se ergueu da poltrona e deixou a biblioteca, dirigindo-se lentamente para o vestíbulo. Naquele momento, o mordomo, um bom velho que o vira nascer, surgiu como uma sombra no ângulo mais escuro, envolto num longo capote. Tinha ouvido rumor e vozes na sala, receando que o barão, cujo estado de saúde já o vinha preocupando há vários dias, estivesse a precisar de auxílio, viera ver o que ocorria. A expressão que leu no semblante de seu patrão confirmou todas as suas pessimistas apreensões e suposições e, embora desde há certo tempo todos andassem temerosos das crises de cólera do fidalgo, o ancião decidiu enfrentá-lo e lhe disse, em tom respeitoso, mas em que havia certa autoridade, necessária, que ele compreenderia, naquele momento:
- Senhor barão... O senhor vai para a rua a esta hora? O senhor está mortalmente pálido, vê-se que não está passando bem. Deve repousar, senão vai adoecer gravemente. Quer que chame um médico?
- Deixe-me passar - disse Luís Paulo, com voz rouca. - Quero andar um pouco...
- Mas, senhor barão, a noite vai alta... O senhor está enfermo... Onde pretende ir? Espere ao menos que amanheça o dia!
- Deixe-me passar, já disse! Saia do meu caminho!
- Não posso permitir que o senhor vá andar por aí, nestas condições. Se algo de ruim lhe suceder, a senhora baronesa nunca me perdoará!
Aquela referência a Denise teve o poder de aumentar ainda mais a ira do rapaz. Com um movimento brusco, inesperado nele, que era a própria imagem da gentileza e da brandura, afastou de si o mordomo, e saiu pela porta do jardim, dirigindo-se para a coudelaria.
Um minuto depois, montado no cavalo que estava mais perto dele, deixava a quadra. Passou veloz diante do mordomo, que viera atrás dele, e que teve de dar um pulo para trás, a fim de evitar ser atropelado. Logo desapareceu veloz pela alameda, na mesma direção em que pouco antes por ali passara o detetive particular. O saibro chiava sinistramente sob os cascos do animal, mas Luís Paulo não percebia o perigo que corria e esporeava cada vez mais o cavalo, com os olhos fixos no vazio, fazendo as curvas da estrada numa velocidade de louco, exigindo tudo do potente animal.
Qual era a intenção de Luís Paulo, no seu desespero de amor? Suicidar-se?

SESSÃO CAPAS E PÔSTERES

A capa que reproduzimos abaixo foi publicada na revista TV Intervalo nr. 442, publicada no ano de 1971.
Já o pôster de Toni Ramos foi publicado na revista Sétimo Céu – Série Amor nr. 40 de janeiro de 1976.
Boa diversão!









SESSÃO FOTO QUIZ

A foto da semana passada é do ator Reinaldo Gianechini.
Agora tentem descobrir quem é o belo rapaz da foto.
Eis algumas pistas:
1) Nasceu em 1911 no Rio de Janeiro.
2) Em novelas, estreou em 1963, em Nuvem de Fogo, na TV Rio.
3) Participou de novelas como: O Sheik de Agadir, Selva de Pedra e Dancin’Days, todas na Rede Globo.
Boa diversão!


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

FIC - À PRIMEIRA VISTA - CAPÍTULO 34 - AUTORA: SÔNIA FINARDI

CAPÍTULO XXXIV – ENTRE O CÉU E O INFERNO

Quando Claude se volta, todos estão olhando e tentam disfarçar.
C: Pardon, pessoal.. Essa mulherzinha me tirou do sério, hã?
Am: Mas quem era essa moça?
F: Essa “moça”, D. Amália, é a antiga namorada do Claude. A que “fugiu” com o Júlio...
G: Dio Mio! Tutti farinha do mesmo saco...
Ms. Smtih: Dr. Claude, como o senhor pode ter se envolvido com um  pessoa igual essa Nara?
C: Non era um envolvimento, Ms. Smith, era uma acordo.  Apenas diverson... e mesmo assim non valeu a pena!
                               
No cativeiro de Rosa.
Rosa se fecha no quarto. Está sem relógio, não tem noção do tempo, das horas. Só sabia que ainda era véspera de Natal.
“Eu tenho que arrumar um jeito de sair daqui... se ele saísse, eu podia arriscar, pedir ajuda a algum vizinho...ou então se eu pegar o celular dele... sem ele perceber... isso...  boa idéia, Rosa... o celular...”
Ela vai até onde Júlio está.
R: Júlio... por favor, me deixa falar com o Claude...
Ju: Não. Aqui quem manda sou eu. Vocês só se falam quando eu quiser e pelo tempo que eu quiser...
R: Então com minha mãe... Poxa Júlio... é Natal!
Ju: Já disse que não! Você não fala com ninguém! E pouco me importa se é Natal, Carnaval, seu aniversário...
Rosa respira fundo e volta para o quarto. Não sem antes observar que o celular dele estava largado em cima da mesa.
“Ele ainda vai tomar banho... tenho que ficar esperta e ser rápida!”
Rosa deixa a porta entreaberta e fica observando os movimentos de Julio.
Quando percebe que ele vem ao seu encontro, pula na cama e finge dormir.
Ju: Serafina, eu sei que você está acordada. Eu vou tomar um banho. É claro que as chaves da casa estão comigo...
Assim que escuta o chuveiro, ela vai até a sala.
 “Tomara que ele tenha deixado o celular aqui!” E quase grita de felicidade quando o vê largado sobre a mesa.
Ela pega o celular e liga pra sua casa.

No apartamento, assim que o telefone toca, Claude diz:
C: Paulo, eu quero atender...  vou me controlar... por Rosa.
P: Ok. Vai lá!
C: Pode falar, Júlio!
R: Claude? – Ela praticamente sussurra...
C: Rosa?! – Ele dá um sorriso, olhando pra todos. Chérie, você está bem?
R: To meu amor... eu não posso falar muito... ele ta no banho... não vai demorar...esqueceu o celular aqui...
C: Rosa nós vamos te tirar daí! Você tem idéia de onde está?
R: Não... ele me trouxe vendada pra cá. Eu não posso sair de dentro da casa...
C: Quem mais está aí com vocês?
R: Aqui dentro só ele e eu... não sei se tem alguém vigiando lá fora...
C: D’accord.  Tá todo mundo aqui, mon amour... sua família, Dadi,  Frazon, Janete, Antoninho, Alabá... Freitas que já teve que ir... e o casal Smith, hã? Sem contar a equipe de Paulo...
R: Os americanos? Como assim, meu amor?
C: Eles souberam do seu seqüestro pela internet e vieram te esperar também, mon amour...
R: Diz que eu estou agradecida a todos... Claude, eu não posso demorar... só liguei pra te desejar um Feliz Natal, meu amor...
C: Como posso ser feliz, longe de você chérie?
R: Eu preciso desligar... te amamos... muito...
C: Também te amo, chérie!  Todos aqui te...
Ju: Mas que ceninha bonita, D.Serafina – Claude escuta a voz de Julio do outro lado.
C: Rosa! Rosa!... Mon Dieu! Ele pegou Rosa com o celular...

No cativeiro
 Ju: Mas que ceninha bonita, D.Serafina! O que você pensa que ta fazendo? – Diz segurando-a pelo braço e arrancando o celular de sua mão.
R: Me solta! Eu pedi pra você! Se você tivesse me deixado falar com ele... Me solta, Júlio!
Ju: Eu vou te soltar! No quarto! Você não sai mais de lá! Eu confiei em você! Quebrou as regras, Serafina!
R: Eu precisava ouvir a voz dele, falar com ele...
Ju: Que romântico! Acho que vou chorar! – Diz ironicamente, enquanto a empurra pra dentro do quarto e tranca a porta por fora!
R: Júlio, abre essa porta! Não faz isso!
Ju: Devia ter pensado antes de me desobedecer... eu disse que vocês só se falariam quando eu quisesse! Agora fica aí, até eu resolver se e como vou punir você por isso!
R: Júlio! Júlio! – Mas escuta os passos dele se afastando – Quer saber? Eu faria de novo! E de novo! Quantas vezes eu conseguisse!
Rosa lentamente senta na cama. E começa a chorar.
“Claude... faz alguma coisa rápido pra me tirar daqui...  Meu Deus, me dê forças!”

No apartamento.
Claude, desesperado, continua falando.
C: Ele pegou Rosa com o celular! Mon Dieu, quem sabe o que ele pode fazer com ela?!!
P: Ele não vai fazer nada, Claude! Ele sabe que se sair da linha ainda mais não terá chance nenhuma... Mas veja, por outro lado, essa ligação corajosa de Rosa deu algum fruto para nós.
C: Como assim, Paulo?
P: Ela ligou direto. Não houve redirecionamento. Apesar de ser um número restrito, conseguimos localizar a área onde ele está. Mais um pouco e teríamos conseguido o local exato de onde partiu a chamada...
C: Enton, isso significa...
P: Significa que já sabemos por onde iniciar as buscas. Já demos o alerta. Agora sim, tenho certeza é uma questão de horas...
Todos vibram com a notícia, se abraçam e agradecem a Deus.

Nara sai do prédio muito agitada.
“Miserável! Você me paga por essa humilhação na frente de todos, “Dr. Claude”. Isso não vai ficar assim! Mas não vai mesmo!” Me aguarde, que eu não sou de desistir tão fácil!”
Ela pega um táxi e volta para a casa de Coutinho.

No aeroporto, Coutinho embarca com destino à Europa, sem se dar conta de que está sendo seguido por agentes da polícia federal, que entram no mesmo vôo, devidamente “disfarçados”.
“Adeus... não, até breve seus idiotas! Depois que a poeira baixar eu volto pra esse país maravilhoso!” – Pensa, olhando pela janela as luzes que se distanciam, enquanto o avião decola...

Já na casa de Coutinho e sem se importar com o dia e muito menos com a hora, Nara  encontra o telefone de Sampaio, o advogado que cuidava do processo de Júlio e liga seguidamente até  ser atendida:
Sam: Alô?
N: Sampaio, certo?
Sam: Sim... com quem eu falo? – Pergunta, desconhecendo a voz.
N: É Nara. Nara Paranhos de Vasconcelos, uma amiga do Coutinho...
Sam: Nara ??... Ah sim! A mulher do Júlio Castelli, aquela linda ruiva que eu vi com Coutinho...
N: Prefiro dizer ex-mulher...
Sam: E a que devo a honra, Nara?
N: Eu preciso falar com o Júlio, eu sei que você ainda tá de olho nele... Eu quero o número do celular dele...
Sam: Esse número é restrito, Nara, no sentido literal da palavra. Além do mais, eu creio que ele não quer falar com você...
N: E que me importa? Sou EU quem quer falar com ele... e então vai me passar?
Sam: Eu vou passar o seu recado pra ele... e te ligo de volta... mas isso vai ter um custo, minha cara ruivinha...
N: Um custo? Eu pago. Dinheiro não é problema...
Sam: Ah, creio que você não entendeu... Eu não quero seu dinheiro. Quero um outro tipo de pagamento...
N: Um outro tipo de pagamento? – Ela se faz de desentendida. – Assim você me ofende...
Sam: Longe de mim querer ofendê-la! É apenas uma troca de... gentilezas e favores! Então? Eu falo com ele e passo na sua casa. É só me dar o endereço.
N: Eu estou na casa do Coutinho, por enquanto. Ele viajou, eu estou sozinha mesmo... consiga o que eu quero e a gente conversa melhor. Ah! Feliz Natal pra você!
Sam: Vai ser um Feliz Natal, se  Papai Noel me der você de presente!
Nara desliga o telefone.
“Vai valer a pena “pagar” esse favor. Ah, Claude! Você não perde por esperar... Se o fraco do  Júlio me ouvir, eu vou comemorar sua infelicidade!”

No apartamento, ninguém pensa em ir embora.
Todos estão apreensivos, porém, confiantes na volta de Rosa.
D. Amália sugere que façam uma corrente de pensamento positivo quando der meia noite pra enviar energia boa pra Rosa. Todos apreciam a idéia, até os americanos que não estão acostumados com essas idéias...
A meia noite se aproxima. Faltam poucos minutos. Todos se preparam. Porém, assim que se dão as mãos, exatamente à meia noite, a campainha toca.
P: Deve ser as pizzas, finalmente! Já estava desistindo!
C: Deixa que eu atendo e acerto tudo, hã?
P: Não, Claude, nós temos uma verba destinada a essas coisas...
C: Non, eu faço queston. É o mínimo que posso fazer... Non é justo estarem aqui em pleno Natal... sem uma ceia farta... – E caminha em direção à porta.
Ele abre e realmente são as pizzas. Ele recebe e acerta o pagamento. Frazão vem ajudá-lo a carregar as pizzas, dez no total, juntamente com Paulo, que se encarrega de pegar o fardo de refrigerantes.
Mal eles colocam as pizzas na mesa, a campainha volta a tocar.
C: Mon Dieu! Deve ser o entregador pedindo gorjeta... – Ele volta até a porta e abre. E se depara com uma moça vestida de cegonha com roupas de “mamãe” Noel.
C: Moça, eu acho que você errou de porta, aqui non tem baile à fantasia non...
M: Casa dos Geraldy?
C: Oui...
M: Então, não há engano... Eu tenho uma entrega pro senhor Geraldy!
C: Sou eu... Mas era só o que me faltava! Que brincadeira é essa? Entrega de que?
Frazão se aproxima ao escutar o tom de Claude nada amigável.
M: Olha moço, eu sou uma estudante de teatro e apenas to fazendo a entrega – Ela abre um “pergaminho” e começa a ler:
“Diretamente da Terra dos Desejos, para o Sr. Claude Antoine Geraldy.”
Claude cruza os braços, respira fundo, os coloca na cintura e já vai mandar a moça embora quando escuta:
Enviado por Serafina Rosa Petroni Geraldy, em nome de Mamãe Cegonha.
Em resposta à sua solicitação, venho informar, através desta mensagem, que seu desejo foi realizado, após análise de seu merecimento. Parabéns!
Você se tornou um verdadeiro  Père Noel ! *
Sem trocadilhos... literalmente!
Felicitè, Sr. Geraldy
Felicitá, SrªGeraldy

                                                                                                           La mère Cigogne.*
A cada palavra pronunciada, Claude ficava mais pálido. Não acreditava no que ouvia...
A moça se cala, dá um grande sorriso e entrega um pequeno baú para Claude, juntamente com a mensagem... Claude automaticamente segura os objetos, aparentemente desorientado.
F: Claude, você está bem?
C: Frazon...  será que eu entendi direito?
F: Se você entendeu que a  cegon..., quero dizer  a moça aí te trouxe um recado da cegonha... eu acho que entendeu sim, mon ami...
F: Frazon... a Rosa tá grávida! MonDieu! Ela tá grávida, Frazon! – Fala mais alto do que pensa...
Todos se voltam pra ele:
J: Ai, meu Deus! Era essa a surpresa da Rosa!
Am: Serafina está grávida?
Ms: Smith: A baby!!!
G: Dio Mio! Rosa vai ter um bambino!
Claude ainda sob o efeito do “telegrama”, abre o baú e lê:
“Para o amor da minha vida”
M: Hum... hum... hellooo?
Mas Claude, simplesmente sobe para o quarto.
F: Claude! Claude! Espera mon ami... – Ele se dirige à moça e dá uma gratificação à ela.
F: Obrigado, moça! Desculpa o francês... ele ficou muito emocionado... Boa noite... e Feliz Natal...
Frazão sobe atrás de Claude, enquanto todos na sala se olham...

No mesmo instante, no cativeiro, Rosa escuta alguns fogos ao longe e o burburinho dos vizinhos. Ela percebe Júlio abrindo a porta e fica na defensiva.
Ju: Eu trouxe seu jantar. Não é assim uma ceia de Natal, mas dá pra enganar... Eu trouxe um suco de uva, também, na falta de vinho...
R: Obrigada, mas eu estou sem fome.
Ju: Melhor você comer, Serafina. Não comeu nada o dia todo. Tudo que eu trouxe você devolveu sem mexer... Faz uma força... senão por você, pelo seu filho!
R: Meus filhos! São gêmeos!
Ju: Gêmeos? Que legal! Eu gostaria de ter tido um irmão... -  Diz melancólico – Mas  não tive... Então melhor você comer porque não quero ser acusado de maus tratos a uma gestante! – Ironiza e sai.
“Meia noite com certeza! Ah, meus filhotes! – acaricia a barriga – Se nada mais de errado aconteceu, papai já ta sabendo de vocês! Eu queria tanto ter visto a carinha dele... Era pra ser a nossa surpresa! Divertido, alegre! Mas papai ama vocês, viu? Ele vai salvar a gente!”
Ela olha para o prato de comida e se esforça para comer um pouco. Porém as lágrimas  aparecem e ela chora, empurrando o prato para dentro da mesinha. Volta pra cama e se deita.
“Melhor eu continuar a conversar com vocês!” – Diz com uma mão sobre a barriga, enquanto a outra se ocupa em limpar as lágrimas. “Feliz Natal, meus amores! Ano que vem, Papai Noel vai trazer muita alegria pra vocês... Nós vamos passear no Parque do Sol, junto com o papai... Vamos comer bolo da nona Amália. Ouvir o nono Giovanni tocar acordeom... Ah! Tem o tio Dino no futebol... Tia Janete e Tio Frazão... Dadi... Tia Terezinha... Nossa! Tanta gente pra vocês conhecerem... a casa da vovó Annabelle... hummm... preciso perguntar pro Claude como se diz vovó em francês...” - E acaba adormecendo...

No quarto, Claude solta as lágrimas, sentado na cama com o baú em suas mãos. Frazão entra.
F: Claude, mon ami, com licença. Isso foi um choque pra você, não?
C: Frazon... eu devia ter percebido, desconfiado... todos aqueles desmaios, naúseas, sono... mudanças repentinas de humor – ele dá um sorriso tristre – toda aquela geléia de goiaba... eu fui um burro, Frazon! Tava ali na minha cara e eu non vi!
F: Também não é assim!  Esses sintomas pareciam estresse pela situação... Acho que nem ela sabia, meu querido!
Janete entra no quarto.
J: Desculpa, a porta tava aberta... Claude, a Rosa só teve certeza no dia que foi ao médico. Eu sabia, mas ela pediu segredo... porque queria que fosse o seu presente de Natal.. Era pra ser divertido...
C: Era a surpresa que ela ia fazer... MonDieu!
J: Você já abriu o presente?
Ele olha para o baú.
C: Non...
J: Frazão, você não ia telefonar pros meus pais? Eu vim te buscar... - Diz pegando na mão dele.
F: Eu? Ligar pros seus pais?
J: É! E dá um apertão na mão dele e faz um sinal com a cabeça pra fora do quarto.
F: Ah... é... vamos... acabei de lembrar, minha  rainha... ai, que mão forte! – ele diz só pra ela escutar. E saem do quarto.
Claude enxuga as lágrimas com as mãos, respira fundo e abre o pequeno baú.
“Para o amor “de” minha vida.
Minha vida começou, no dia em que te conheci. Encontrei ali todo o amor que procurava, naquele beijo...
Ah! Aquele beijo salvou-me!
Salvou meu coração... salvou minha alma...
Esse é o meu presente pra você...
Pensando melhor... É o “nosso” presente... Papai!
Te amamos... Rosa & Cia.
Dez/2011”
P.S. Guardo aqui os maiores tesouros do meu mundo.
Claude olha pra dentro do baú e vai retirando os objetos: uma foto dele sozinho, uma foto dos dois no Parque do Sol, um envelope com duas rosas vermelhas já secas e vários papéis de bombom com os versos que ele escrevera pra ela, um DVD – Gêmeos - primeiro Ultrasson e dois pares de sapatinhos.
Ele acaricia os sapatinhos. E fala, tentando conter as lágrimas:
C: Mon Dieu! Gêmeos... vamos ter gêmeos... Ah, chérie... esse era pra ser um momento mágico ao seu lado... também os amo, mês amours... - Ele vai devolvendo tudo ao baú. - Adoro você sua maluquinha... guardou até os papéis de bombom...
Ele ouve uma batida na porta.
C: Oui? Quem é?
Am: Sou eu, Amália. Posso entrar?
C: Claro, D. Amália, entre, por favor...
Am: Falando sozinho, meu filho? Eu ouvi sua voz da porta...
C: Ah! D. Amália... Rosa non merece isso tudo que tá acontecendo com ela... Eu daria minha vida pra ela non sofrer...
Am: Eu tenho certeza que ela pensa o mesmo com relação ao senhor. Tenha fé, meu filho. Deus é pai, não é padrasto.
C: D. Amália, como é que um sentimento tão bom como o amor pode doer? Porque a dor que eu estou sentindo, é insuportável! Se acontecer alguma coisa com Rosa... e com nossos filhos... Mon Dieu... non quero nem pensar...
Am:  Não vai acontecer nada com Serafina. Filhos, você disse nossos filhos?
Claude pega os sapatinhos e coloca nas mãos dela.
C: Olha só... o presentinho que ela me deu... dois presentinhos... dois anjinhos, D. Amália... gêmeos.
D.Amália não contém as  lágrimas, enquanto aprecia os sapatinhos.
Am: Eu vou continuar rezando... Vou rezar pra Santo Antonio que nunca me deixou na mão... e pra Nossa Senhora... Eles vão me ouvir... e o Júlio vai parar com essa loucura...
C: Faz isso, D. Amália... reze... Eu acho que non sei rezar direito – ele tenta disfarçar uma lágrima que cai, teimosa – porque  Deus non tá me ouvindo... senon já teria trazido Rosa pra casa...
D.Amália passa a mão pela face de Claude num gesto carinhoso, se levanta e vai saindo do quarto. Já na porta ela se volta e diz:
Am: Ele ouviu sim, Doutor Claude... porque o senhor fez a mais pura das orações,  rezou  com o coração... por amor! 

SESSÃO LEITURA - A RUA - CASSIANO RICARDO

O poema que reproduzimos abaixo é da autoria de Cassiano Ricardo.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Modernismo22/CASSIANO_RICARDO.htm.
Boa leitura!

A RUA

Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não,
[apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da
[espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

Fonte: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Modernismo22/CASSIANO_RICARDO.htm

SESSÃO ABERTURA DE NOVELA - LIVRE PARA VOAR

A novela Livre para Voar foi apresentada pela Rede Globo no horário das 18h de 17 de setembro de 1984 a 13 de abril de 1985.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/livre.asp.
O tema de abertura era “Ao que vai chegar”, interpretado por Toquinho.
Boa diversão!

video


LETRA

AO QUE VAI CHEGAR

Voa, coração
A minha força te conduz
Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
E não esqueça de trazer força e magia,
O sonho e a fantasia, e a alegria de viver

Voa, coração
Que ele não deve demorar
E tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
E traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
E de onde se planta a paz,
Da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
Pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

Fonte: http://letras.mus.br/toquinho/49094/

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O INFERNO DE UM ANJO - CAPÍTULO 35 - PARTE 2 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange




Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL

Capítulo XXXV

O HOMEM MISTERIOSO (CONTINUAÇÃO)


Atravessou o escritório e alcançou a rua, encaminhando-se para uma cocheira próxima, onde guardava uma pequena charrete e um cavalo. Uma vez na charrete, atravessou então toda a cidade e, alcançando o subúrbio, percorreu um intrincado labirinto de ruelas e foi parar diante de uma casa de péssima aparência, uma bodega mal cuidada a cuja porta se lia o pomposo título: "Cervo de Ouro".

O proprietário da espelunca já devia conhecê-lo, mas sob falsa identidade, pois que mal ele entrou naquilo que chamavam sala de chá, foi cumprimentá-lo, dizendo:
- Oh! Senhor Fouquier! Faz bastante tempo que não o vejo! Sem dúvida os afazeres não lhe permitiram...
- Sim, sim... Muito trabalho... - interrompeu Duroi. - A propósito, Afonso está aí?
- Está sim, comum amigo.
- Há alguém na salinha dos fundos? Desejaria estar tranquilo, sem ser incomodado.
- Não, não há ninguém. Está às ordens. Quer que chame Afonso?
- Chame, sim, obrigado - respondeu Ubaldo. - E se Rosendo estiver com ele, que venha também.
Enquanto o detetive entrava na salinha dos fundos, que servia de ponto de reunião para os grupos de malfeitores que costumavam frequentar aquele local mal-afamado, o dono da casa entrou numa fumarenta sala de jogo, na qual se encontravam, empenhados em animado carteado, os tipos que haviam atentado contra a vida de Luís Paulo, dias antes, sem sequer os cumprimentar, o homem fez parar o jogo e disse:
- Chega, rapazes. O senhor Fouquier está aí e lhes quer falar.
Aquele nome devia ter uma grande influência entre eles, porque, mal o ouviram, ambos se encaminharam para o ponto onde Ubaldo Duroi, sob falsa personalidade, os aguardava. Mal os viu aparecer, o detetive os saudou com um gesto e disse:
- Ainda bem que eu conheço a mania de vocês pelo baralho, seus vagabundos, pois do contrário não saberia onde os encontrar.
- Eh, chefe, você aí! Traga uma garrafa de conhaque! E vocês, sentem-se.
Depois de todos terem aquecido o estômago com uns bons goles da bebida, o investigador perguntou:
- Temos tido muito trabalho, estes últimos dias?
Afonso Houdin foi quem respondeu:
- Nada!... Não aparece coisa que preste... Temos tido um azar desgraçado...
- Então, meu caro, quando as coisas andam ruinzinhas assim, nada há de melhor que uma excursão campestre. Que dizem? Por uns dias...
Afonso olhou o detetive com a mesma expressão com que teria olhado um louco.
- Lindo, sem dúvida, passar uns dias a passear pelos campos... Quem é que não aprecia? Mas... Cadê a gaita? Onde está o tutú? Quem o tem?
- Eu! - respondeu sem hesitação Duroi. E tirou, ao mesmo tempo, do bolso, um maço de notas, do qual separou algumas, que distribuiu entre os malfeitores, que não sabiam se deviam crer nos próprios olhos.
Afonso, no entanto, passado o primeiro momento de surpresa, decidiu esclarecer as coisas:
- Ouça, senhor Fouquier. Eu o conheço muito bem, há muito tempo, e sei que o senhor não dá nada por nada. Não é verdade? Que devemos fazer, por este dinheiro?
Ubaldo Duroi sorriu, divertido.
- Sempre desconfiadinho, Afonso... Até mesmo quando um amigo quer lhe fazer um favor! Apenas me preocupava com a sua saúde... Naturalmente, pensei que, como a gente no campo se sente às vezes entediado, poderia acontecer que lhe agradasse sair em busca de uma jovem que andou caindo do alto de uma ponte, no rio, há alguns dias, e cujo corpo ainda não foi encontrado.
- Bem que eu sabia que havia algo por trás disso...
- O que, aliás, é uma distração como qualquer outra!
Rosendo, que até aquele momento se preocupava apenas com o dinheiro, que estava ajeitando e guardando, e em saborear o conhaque pago pelo outro, ergueu a cabeça e perguntou com jeito de quem já se sente contratado:
- E onde fica esse negócio?
O detetive entregou-lhe um papel com as necessárias explicações, indicando o local do posto do guarda, a ponte etc.
- É um bocado longe da cidade, lugar ideal para se descansar e... Para andar pescando mulher afogada! - completou Afonso que, no fundo, estava bem satisfeito por ter que sair da cidade.
- Estamos, então, de acordo? - concluiu Ubaldo Duroi.
- Esteja tranquilo, senhor Fouquier. Amanhã, cedo, já estaremos no nosso posto.
- Muito bem. Façam a coisa direitinho e não se arrependerão. O corpo não deve ser achado... E agora, com licença, vou ao encontro de Rosane... Há muito não a vejo e ela deve se sentir sozinha, coitada.
- Ela está aborrecida, sim, porque não temos organizado nenhum roubo de importância - exclamou Afonso.
O detetive falou que não tardariam em ter bons negócios a executar. Depois bebeu ainda um copo de conhaque e, depois, levantando-se de onde estava, sem mais ligar importância aos dois homens, saiu da salinha e entrou num corredor cujo final havia uma escada. Chegando ao patamar, deu algumas batidas na porta e, sem esperar resposta, foi entrando. Achou-se numa salinha modestamente arrumada, na qual era envolvido por uma onda de perfume ordinário misturado com fumaça de cigarro. Estirada no sofá estava uma bela moça de cabelos ruivos. Estava lendo um livro e, sem erguer a cabeça, disse irritada: - Dê o fora daqui! Já disse que não quero ver ninguém!
Nada desencorajado com aquele acolhimento, Ubaldo Duroi se deixou afundar numa poltrona velha e exclamou, rindo:
- Minha bela Rosane, nunca esperei ser recebido com essas palavras tão duras!
Ouvindo aquela voz, a moça teve um sobressalto e tratou de sentar-se.
- Fouquier! É você? Eu devia ter visto logo quem devia ser, pois só uma pessoa como você tem coragem de entrar no meu apartamento sem pedir licença!
Jogou o livro para um lado e, pondo-se em pé, aproximou-se do detetive, perguntando:
- Agora, diga-me: que bons ventos o trazem aqui, Fouquier?
- Os ventos da fortuna, menina - respondeu o detetive particular, entre sério e brincalhão. - Ventos que devem empurrar um bom dinheiro para os nossos bolsos!
- Não diga bobagens! - respondeu a moça. - Vamos logo ao que quer, penso que se tratará de alguma boa trapalhada para extorquir algum sujeito ou alguma dama incautos.
- Você gostaria de ir morar num belo palácio, onde tudo é luxo, elegância, refinamento? De viver com uma jovem e riquíssima condessa, que a cumularia de amabilidade e proporcionaria o modo de compartilhar do vidão que ela própria vive?
Rosana mostrou os dentes alvíssimos num sorriso e ironizou: - E você? Não gostaria de ser Napoleão, o Imperador da França?
Num instante a voz do detetive se tornou dura, autoritária.
- Engraçadinha idiota! Bem sabe que não aprecio piadas. Não vim aqui para contar anedotas.
Enfiou a mão no bolso interior do casaco e de lá retirou um envelope. E explicou:
- Aqui está uma carta de apresentação para a baronesa Denise de Rastignac, em cujo palácio você se apresentará amanhã à tarde e, graças à qual, entrará para seu serviço, na qualidade de camareira, ou que sei eu... O importante é que você seja admitida, em suma. Mas deve ter em mente que você vai viver no meio de gente fina, de fidalgos, pessoas educadas, terá de esquecer esses seus modos rudes e plebeus. Entendido?
- Está bem, saberei comportar-me como você deseja. Sempre sonhei ser uma atriz e agora vou poder representar.