sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O INFERNO DE UM ANJO - SEGUNDA PARTE - CAPÍTULO 17 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange




Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL


Capítulo XVII

QUEM ERA NA REALIDADE A CARTOMANTE?

Depois de um trajeto bem longo, que foi obrigada a fazer a pé, pois não tinha dinheiro sequer para tomar uma condução, Maria "Flor de Amor" chegou a um palacete mais ou menos isolado, circundado por um jardim no qual cresciam, em maioria, grandes plantas tropicais.
Numa tabuleta pregada em duas pilastras, lia-se o seguinte: Ivonne Delapierre - QUIROMANCIA - CARTOMANCIA - CIÊNCIAS OCULTAS.
A jovem tocou a campainha, mas em vez de ouvir o ruído habitual, comum a todas as campainhas, o que escutou foi um som parecido com o que produz um gongo ou um sino repercutindo longamente no interior do edifício.
Este detalhe era bastante estranho e singular, mas, antes que ela tivesse tido tempo para refletir, a porta do palacete se abriu e um hindu baixinho, de idade indefinível, trajando um estranho uniforme colorido, atravessou o jardim e, tendo aberto o portão, olhou com ar interrogativo a recém-chegada.
- Desejo falar com a senhora Ivonne - disse Maria "Flor de Amor".
Sem dizer palavra, o hindu se voltou e, precedendo-a, entrou para o vestíbulo e seguiu até uma pequena peça onde, como único mobiliário, havia algumas poltronas forradas de couro de leopardo.
Uma vez ali, fez sinal à jovem para que esperasse e se foi, sem fazer o mínimo ruído, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.
Maria "Flor de Amor", cada vez mais inquieta, ficou à espera, de pé, perguntando-se se fizera bem em aceitar o oferecimento da diretora da agência de empregos.
Aquele lugar nada tinha, certamente, de alegre e atraente e, embora ela compreendesse que o sinistro gongo, o hindu silencioso e singularmente uniformizado, as peles de leopardo, tudo isso fizesse parte de uma complicada encenação organizada de propósito pela quiromante, para impressionar os clientes, nem por isso deixava de experimentar uma estranha sensação, de mal-estar, quase de medo, como se um perigo secreto, cuja natureza não conseguia ver, a ameaçasse. Ela estava ainda imersa em seus pensamentos quando uma senhora, muito bonita e de boa aparência, excentricamente vestida, entrou na saleta.
- Sou Ivonne Delapierre - disse a quiromante, fitando na jovem os olhos de estranho verde-esmeralda. - Veio para uma consulta?
- Não, senhora. Venho a mando da agência de empregos.
- Sim, sim... Efetivamente, eu pedi que me enviassem uma pessoa de toda confiança.
Observou demoradamente Maria "Flor de Amor", que se sentiu ruborizar, sob aquele olhar penetrante, e depois continuou:
- Então... É a pessoa de que eu preciso...
- Sim, senhora...
- Como se chama?
- Maria Aubert, senhora.
Os olhos da quiromante se apertaram ligeiramente, ocultando um lampejo estranho.
- Que foi que disse?
A jovem, estranhando, repetiu, mais devagar, procurando dar a mais clara entonação às palavras: - Maria Aubert, minha senhora. Acaso já ouviu alguma vez o meu nome?
- Não, não! Apenas não ouvira bem, eis tudo. Tenho o maior prazer em recebê-la como... Colaboradora, senhorita. Além do trabalho que já lhe foi explicado na agência, terá de ajudar-me em alguns afazeres no serviço da casa. Nada de trabalho pesado, naturalmente. Tem alguma coisa a objetar?
Maria "Flor de Amor" sacudiu energicamente a cabeça.
- Oh! Trabalho nenhum me assusta, até gosto! Além disso, confesso que, no momento, preciso muitíssimo de uma ocupação, porque estou sem dinheiro nenhum.
- Aprecio muito sua boa vontade. Quanto ao seu salário, estou certa de que gostará do que vai ganhar. Você tem jeito de ser inteligente e de ter certo preparo, senhorita. Assim sendo, deve compreender que, para me satisfazer integralmente, deve mostrar-se, antes de mais nada, discreta, não levando em conta aquilo que seus olhos virem aqui dentro. Estamos entendidas?
- Sim, minha senhora. Aliás, não deve recear que eu dê com a língua nos dentes, que vá contar lá fora o que se passar aqui... Não tenho amizades na cidade e, além disso, pretendo tratar unicamente do meu trabalho, pois o que mais me interessa é que fique contente comigo.
- Muito bem. Vejo que nos entendemos perfeitamente. Para melhor compreensão ainda, devo explicar que tenho um caráter talvez estranho e, sendo assim, não se deve espantar nem ressentir-se se alguma vez meu comportamento para com você não corresponder ao que você espera. Sou muito nervosa e o trabalho que executo não é de molde a contribuir para me acalmar os nervos, pelo contrário, percebe?
- Sim, senhora - concordou Maria "Flor de Amor", embora não estivesse entendendo muito bem.
- Quanto ao resto - concluiu a cartomante - eu lhe explicarei com vagar. Pode ficar aqui a partir deste momento?
- Certamente! Não tenho razão para não fazê-lo e minha bagagem se reduz a uma maleta que trouxe comigo.
Ivonne Delapierre bateu palmas duas vezes e imediatamente, como se já tivesse permanecido até então atrás da cortina, o hindu da libré chamativa entrou na sala.
- Jordi é mudo - explicou a quiromante, enquanto Maria "Flor de Amor" olhava para o empregado, não podendo deixar de sentir certa repulsa por ele - mas, em compensação, não há melhor cumpridor de ordens, fará o que eu mandar, seja lá o que for, sem a menor hesitação...
Fez uma pausa, como se quisesse dar um significado especial àquelas palavras. Depois, acrescentou, virando-se para o servidor:
- Jordi, acompanhe a senhorita Maria até o quarto que vai ser dela e arranje tudo conforme o seu gosto.
Fazendo um aceno com a cabeça para a patroa, o hindu fez um sinal indicando o hall, para que “Flor de Amor” o precedesse.
Ficando sozinha, a quiromante passou num gesto nervoso a mão muito branca e afilada pelo rosto e disse falando consigo mesma:


“Que sorte a minha! O destino fez com que eu a encontrasse quando menos esperava, mas no instante em que mais necessidade tinha dela! Maria Aubert, a verdadeira filha do conde Fernando!... Denise tem razão para começar a tremer, desde este momento! Aquela idiota parece que não levou em conta a minha ameaça... Pois bem, agora vai ter que enfrentar as terríveis consequências! Pretensiosa, filha indigna que ousou desacatar as minhas ordens, depois de tudo o que fiz por ela! Ah! Como se arrependerá!”

2 comentários:

  1. Maria caiu nas garras de Renata novamente, coitada! E periga sofrer muito mais ainda, que sina! Renata quer prejudicar a própria filha, que pessoa desumana! Quanta reviravolta nessa trama!

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  2. O que será que a maldosa Renata pretende? Vem mais emoções e das grandes por aí... Muito bom. Parabéns, Paulo.

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